Ao olharmos para o panorama internacional e vermos as diversas convulsões na Sociedade, geradas por movimentos que não se bem de onde surgem, já nos tínhamos interrogado se esses fenómenos não chegariam também a Portugal.
Portugal é aquele país que como se sabe
tudo chega mais tarde, as reacções são sempre mais tarde, só somos precursores
no que toca a tirar-nos dinheiro dos bolsos mais facilmente, como tal, somos
precursores da Via Verde e dos Multibancos.

Tínhamos falado com pessoas que se
interessam por política, e colocado a questão: Será que o formato e as atitudes
dos actuais partidos, se não mudarem, se não estiverem atentos, se não
acompanharem a vida da Sociedade, se continuarem ensimesmados, tendo uma cúpula
de poder fechada e às vezes quase familiar, que não ouve as bases e até tenta
acabar com elas, querendo gerar uma onda que é feita aproveitando os Media.
Será que os partidos portugueses vão ter o mesmo caminho que estão a ter alguns
partidos europeus?
Depois de debatida a questão, disseram que
o fenómeno António Costa, a gerigonça, a paz social alcançada, o recuperar do deficit,
a entrada de divisas através dos Turistas (que nos trará outro tipo de problemas),
o bom desempenho da economia, mitigavam todo esse tipo de movimentos, porque o
povo tinha motivos para estar razoavelmente contente.
O facto é que, exceptuando o PAN, os partidos
(mesmo os trazidos e incutidos pelos EUA, em relação aos radicalismos) que têm
aparecido pouco ou nenhum significado têm… pelo menos por enquanto.
1.Relacionado com este assunto, e sabendo
que os Sindicatos são um loby poderosíssimo dentro dos partidos, há muito que
observamos o fenómeno do Sindicalismo em Portugal.
Se muita gente tem
razões para não gostar nem confiar nos partidos em Portugal… esta nossa opinião
é bem sustentada pela alta taxa de abstenção e de votos brancos e nulos, se conhecessem
o funcionamento dos sindicatos, então diriam que os Partidos são para meninos.
Os sindicatos em
Portugal, são estruturas pesadas, antiquadas, com dirigentes que raramente são mudados.
Comparamos os sindicatos
ao antigo politburo da Ex-União Soviética, mudaram os líderes, mas o resto do “bureau”
continuava lá, e só eram substituídos por morte.
Já ouviram falar em controleiros?

Se sim, sabem o que são. Se não ouviram
falar, nós exolicamos: são as pessoas que em nome de um partido ou de um
sindicato, estão lá para controlar, para ver se “não mijas fora do penico”, e
se o fizeres, tens o politburo logo à perna.
Os sindicatos não são democráticos,
colocam nas empresas ou noutros lugares chave, delegados sindicais da sua
inteira confiança, às vezes acertam e colocam pessoas com capacidades, mas na
maior parte das vezes os Delegados Sindicais, não estão lá para transmitirem ao
sindicato os problemas dos trabalhadores na empresa, estão lá para servirem de
correia de transmissão, entre o sindicato e os trabalhadores. Com isto têm a
benesse de trabalhar umas quantas horas a menos por semana, e, se tudo correr
bem, passam a dirigente sindicais, e nunca mais trabalham na vida… exemplos
destes abundam por aí.
Não, os Sindicatos não são democráticos,
porque controlam a eleição do delegado sindical, e assim controlam também a eleição
dos órgãos do sindicato.
Os sindicatos refinaram a pseudo-democracia,
os sindicatos raramente querem mudar de líder, o status quo existente, é-lhes
favorável, não lhes interessa ter protagonismo, pelo contrário, quanto mais
protagonismo mais visibilidade, e mais visibilidade mais se nota que eles não
trabalham, por isso a visibilidade é geralmente só para um, para o líder, e
quando este se reforma ou causa ondas de choque, mudam o líder.
Os sindicatos levaram este tipo de
actuação para dentro dos partidos, só que nos partidos existe a ambição e o
querer ser visível, é menos controlável do que um sindicato, é mais escrutinável,
mas como lobby que é, actua em conjunto e consegue sempre ter deputados e gente
deles dentro das cúpulas partidárias.
Com isto tudo os sindicatos
esclerosaram-se, não acompanharam a sociedade, raríssimo é o sindicato que
acompanha o querer da sociedade.

Sim consegue levar milhares de pessoas
para rua, utilizando o velho “manual da manipulação das massas pela propaganda
política”, mas, se virmos bem o nível de sindicalização em Portugal é baixo,
está abaixo dos 30%, se não for menos.
Mas como são máquinas pesadas e com um
marketing propagandístico bom mas em desuso, vão conseguindo vitórias de pirro.
Aliado a isto, o facto de as estruturas de
cúpulas sindicais não mudarem, faz com que fiquem permeáveis ao grande capital.
O dinheiro tudo compra, e compra melhor
quem está mais comprometido.
É que os sindicalistas, tal como os
políticos, estejam eles no governo ou não, também têm família, e ambicionam
grandes lugares para os seus filhos, tios, primos, sobrinhos, amantes etc…
E como estão perto do grande patronato,
uma mão lava a outra e as duas lavam a cara, não sendo a primeira vez, nem a
última que nas negociações, são deixados cair reivindicações essenciais, porque
a empresa A ou B, arranjou um emprego para o filho do fulano C que estava a
negociar, ou então que é lembrado subtilmente ao Fulano C que tem lá o familiar
a trabalhar… e mais não é necessário dizer… o que dizem nas Tv’s é que as negociações
foram duras… Pois imaginamos que deve ser duro ouvir: “Então você está com essa
exigência que nós não podemos aceder, tendo cá um familiar seu a trabalhar…”
Os sindicatos ao longo dos anos deixaram
de ser uma força viva que zelava pelos direitos dos trabalhadores, e, passaram
a ser uma grande máquina que luta para sobreviver à custa e sustentada pela
alienação dos direitos dos trabalhadores.
Obviamente, que não podem ser uns mãos
largas, e vão obtendo aqui e ali migalhas, que é par anão darem nas vistas.
Os sindicatos da CGTP é que são peritos
nisso, fazem muito barulho, mas depois assinam cláusulas piores que os
sindicatos da UGT (que chegam a acordo mais facilmente), ou então as melhorias
são tão insignificantes que nos fazem lembrar Much Ado About Nothing, de autoria de William Shakespeare, ou seja
tanto barulho por nada. Os sindicatos fazem de tudo para sobreviver
guerreando-se.
Os sindicatos dizemos novamente são
estruturas esclerosadas, chefiadas por velhos sindicalistas retrógrados (sabem
bem do seu ofício, mas é esse seu saber que contribui para o definhar do
sindicalismo), que teimam em manter-se no poder, teimam em não renovar, e
teimam sobretudo a manter a estrutura igual, mas refinada do politburo do soviet supremo.

Os sindicalistas, como dizíamos atrás, fazem
de tudo por andar na sombra, não possuem ambições imediatas de subida, porque
sabem que perderão tudo se o fizerem.
Não acreditam? Reparem bem:
Pró: Enquanto forem dirigente sindicais
mantêm o seu posto de trabalho na empresa, e, melhor, evoluem na carreira sem
estarem lá, sem horário de entrada, também não têm de saída.
Contra: Se forem afastados da Direcção do
sindicato, voltam ao posto de trabalho e não tiveram formação, têm de cumprir
horários, cumprir ordens, é que picar o ponto é lixado, com horários de entrada
e ás vezes o de saída nem por isso.
Pró: Como sindicalistas têm, viagens
gratuitas para congressos, seminários, quilómetros e gasolina paga para o seu
carro, acesso a férias mais baratas dos protocolos do sindicato, e não, não são
numa espelunca qualquer, é tudo nos locais do bom e do melhor. Representam o
sindicato na União Europeia, na OIT e noutros organismos internacionais e são
pagos por isso (e bem pagos) se forem eleitos para cargos, o que implica mais
viagens e estadias fora do país
Contra: Se sair de dirigente perdem tudo o
que está acima se voltarem para o local de trabalho, ou seja pagam gasolina, quilómetros,
viagens sai-lhes do bolso.
Pró: Despesas de representação, não tem
dias de férias certos, sendo que gozam todos os fins-de-semana prolongados,
saem mais cedo à sexta-feira, leia-se não vão da parte da tarde, alguns até
saem mais cedo à quinta…
Contra: Se sair de dirigente tem de ser o
próprio a pagar tudo, tem de sair a horas, têm 22 dias de férias.
Havia mais para dizer, mas pensamos que já
chega, por isso Democracia nos sindicatos?
Isso é bom para os outros…
2. É aqui que entra a parte dos fenómenos
que se estão a passar na Europa, as convulsões que acima nos referimos, geradas
por movimentos que não se bem de onde surgem, chegou a nosso ver a Portugal,
claro por outra via.
Sem surpresa vos digo, pela via Sindical.
Não chegou pela via dos sindicalistas que
atrás descrevemos, mas sim por alguém que abriu a pestana e viu uma
oportunidade, e agarrou-a.
E agarrou-a tão bem que conseguiu parar o
País, conseguiu colocar tudo em convulsão.
E o fenómeno não vai ficar por aqui, porque,
apesar da contra informação governamental, apesar do silêncio dos partidos de
direita, apesar da tímida reacção dos partidos de esquerda, e da posição dúbia
dos sindicatos tradicionais.
Este fenómeno via fazer mossa, no
Sindicalismo Português e o fenómeno vai-se estender, mais dia, menos dia aos
partidos. Recordem-se que como dissemos atrás e agora mais claramente os
Sindicatos é que “manobram” os partidos (uma parte a outra quem manobra é o
grande capital).
O defeito desta greve dos Camionistas é
eles não saberem transmitir bem as suas reivindicações.
Se um camionista ganha mal? Sim ganha.
E para ganhar mais e chegar a uns míseros
1.500 €, têm de trabalhar mais de 14 horas por dia.
Ou seja, estão a trabalhar o dobro ou
quase o dobro do que deviam.
O princípio do Sindicalismo do fim do Séc.
XIX 8x8X8 (8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer), não
está implementado naquela classe (relembramos que outros povos da europa tiram
esta quantia a trabalhar semana e meia).

E isto não acontece só na classe dos
camionistas, acontece em muitas outras classes, desde administrativos a
técnicos, passando por marinheiros, taxistas etc… e muitos outros. Só que a
diferença, neste momento a classe dos camionistas, não está representada pelos
sindicatos que no ponto 1 nos referimos. Está representada por um sindicato que
não tem “rabos-de-palha” e negoceia duro, como se negociava no início do movimento
sindical.
Acresce que com isto, os Camionistas foram
directos ao ideal europeu, aos princípios da subsidiariedade, aos princípios que
nos andaram a vender que todos os europeus são iguais e que tendencialmente os
salários deveriam convergir.
Eles foram direito à ilusão que nos
venderam, a muito longo prazo, e querem essa ilusão já.
E é por isso, que achamos que com esta
Greve dos Camionistas, o fenómeno que se está a passar na Europa chegou agora a
Portugal.
Como vimos escrito no Facebook: “Entrou um
Pardal no Galinheiro, imaginem se tivesse sido uma Raposa.”
A Brigada está expectante a ver no que
isto dá, e está sempre, sempre pelo direito justo dos trabalhadores.